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Psiquiatra da USP alerta que apostas online ativam cérebro como álcool e cigarro

Especialista em ludopatia afirma que crescimento das bets representa uma "segunda onda" da dependência em jogos e defende maior responsabilidade de empresas e do poder público

Gabriel Porta · · 3 min de leitura
bets
bets — Crédito: Reprodução/TV Cultura

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O avanço das apostas esportivas e dos jogos online no Brasil tem provocado um aumento expressivo nos casos de dependência em jogos de azar, segundo o psiquiatra Hermano Tavares, professor da Universidade de São Paulo (USP) e referência nacional no tratamento da ludopatia.

Em entrevista ao programa Roda Viva, nesta segunda-feira (27), o especialista afirmou que o mecanismo cerebral acionado pelas apostas é semelhante ao provocado por substâncias como álcool e cigarro, tornando o comportamento altamente propenso ao desenvolvimento da dependência.

Fundador e coordenador do Ambulatório do Jogo Patológico do Hospital das Clínicas da USP, criado na década de 1990, Tavares acompanha a evolução desse tipo de transtorno há mais de três décadas.

Especialista compara avanço das bets a um "tsunami"

Segundo o psiquiatra, o Brasil já enfrentou uma primeira onda de pacientes com dependência em jogos durante o período de popularização dos bingos e das máquinas caça-níqueis.

Na avaliação dele, o cenário atual é muito mais preocupante em razão da expansão das plataformas digitais e da intensa publicidade das casas de apostas.

Para o especialista, o país vive atualmente o que chamou de "segunda onda" da ludopatia, classificando o momento como o "meio de um tsunami".

"Cassino no bolso" facilita o acesso

Hermano Tavares afirmou que a principal diferença entre o passado e o cenário atual é a facilidade de acesso às apostas.

Segundo ele, hoje o jogador não precisa se deslocar até um estabelecimento físico para apostar, já que todo o sistema funciona por meio do celular.

Na avaliação do psiquiatra, o cassino passou a estar disponível "a dois cliques de distância" ou "no bolso da calça", permitindo apostas em casa, no trabalho ou em qualquer outro ambiente.

Para o especialista, essa facilidade amplia significativamente o número de pessoas expostas ao risco de desenvolver dependência e aumenta a demanda por tratamento especializado.

Apostas estimulam o cérebro como outras drogas

Durante a entrevista, Tavares explicou que o ato de apostar ativa mecanismos neurológicos semelhantes aos observados no consumo de álcool, tabaco e outras drogas.

Segundo ele, a aposta funciona como um formador de hábito, estimulando o sistema nervoso central e aumentando a vontade de continuar jogando.

Por esse motivo, o psiquiatra defende que as apostas não sejam tratadas como um produto comum de entretenimento.

Especialista critica conceito de "jogo responsável"

Hermano Tavares também questionou o uso da expressão "jogo responsável", frequentemente adotada por empresas do setor.

Na avaliação do psiquiatra, o conceito transfere ao consumidor toda a responsabilidade pelos problemas decorrentes das apostas, da mesma forma que campanhas que recomendam o consumo de bebidas alcoólicas "com moderação".

Para o especialista, a expressão representa uma contradição, já que apostar envolve riscos financeiros e psicológicos.

Segundo ele, quem deseja agir de forma verdadeiramente responsável evita apostar, enquanto quem opta por jogar deve limitar ao máximo essa prática.

Responsabilidade deve ser compartilhada

O professor da USP defendeu que o enfrentamento da dependência em jogos de azar deve envolver três atores principais.

O primeiro é o próprio apostador, que deve ter consciência dos riscos e agir com responsabilidade.

O segundo é o Estado, que, segundo o especialista, precisa investir em campanhas de informação, ampliar o acesso ao tratamento na rede pública e manter uma regulamentação eficiente do setor.

Já a indústria das apostas deve evitar divulgar os jogos como forma de obtenção de renda ou enriquecimento e retirar das plataformas mecanismos que estimulem a falsa sensação de controle sobre os resultados.

Para Hermano Tavares, somente a atuação conjunta desses três agentes poderá reduzir os impactos do crescimento das apostas online e conter o avanço da dependência em jogos no país.

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