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“Independência ou Morte”: 204 anos depois, o que significa ser um país independente?

Da ruptura com Portugal à busca por autonomia em saúde, energia, tecnologia e produção, Brasil ainda enfrenta desafios para transformar soberania política em independência estratégica e social

Julia Maraschi · · 5 min de leitura
“Independência ou Morte”:  204 anos depois, o que significa ser um país independente?

Em 7 de setembro de 1822, o Brasil rompeu politicamente com Portugal e iniciou um novo capítulo de sua história. Às margens do rio Ipiranga, Dom Pedro I declarou a Independência, mas a construção do país independente não terminou naquele momento. O processo continuou pelos anos seguintes, marcado por disputas políticas, econômicas e militares, até o reconhecimento da autonomia brasileira por Portugal.

Mais de dois séculos depois, a palavra “independência” continua atual. Se em 1822 a principal questão era quem governaria o território brasileiro, em 2026 o conceito ganhou novas dimensões. 

Produzir medicamentos, garantir segurança energética, desenvolver tecnologia, proteger dados e reduzir dependências externas também fazem parte da discussão sobre soberania.

A Independência do Brasil, portanto, pode ser entendida não apenas como um acontecimento histórico, mas como um processo que continua sendo construído.

Autonomia 

Hoje, falar em independência também significa discutir a capacidade do Brasil de tomar decisões estratégicas sem depender excessivamente de outros países.

Na saúde, o desafio envolve ampliar a produção nacional de vacinas, medicamentos, equipamentos e insumos farmacêuticos. A estratégia do Complexo Industrial da Saúde busca fortalecer a produção brasileira de tecnologias consideradas estratégicas e reduzir a dependência de importações.

A pandemia de Covid-19 evidenciou essa vulnerabilidade ao expor dificuldades na obtenção de medicamentos, equipamentos e outros insumos. Ter capacidade própria não significa produzir tudo internamente, mas evitar que setores essenciais fiquem totalmente sujeitos às decisões de outros países.

Energia estratégica

A energia também ocupa espaço nessa discussão. A expansão da geração distribuída, especialmente por meio da energia solar, permite que residências, empresas e propriedades rurais produzam parte da eletricidade que consomem.

O armazenamento de energia aparece como uma nova frente. O primeiro leilão brasileiro voltado a sistemas de armazenamento em baterias está previsto para dezembro de 2026, com medidas para estimular gradualmente a nacionalização da montagem e da cadeia de produção de células.

A iniciativa busca reduzir vulnerabilidades em um mercado no qual a produção asiática, especialmente chinesa, possui grande participação.

Petróleo e produção

No setor de petróleo e gás, o crescimento de produtores independentes amplia a capacidade produtiva nacional e diversifica a atividade. O Rio de Janeiro permanece como principal estado produtor, seguido por Maranhão, Espírito Santo, Bahia, Sergipe e Alagoas.

A questão, porém, vai além da quantidade produzida: está também em como transformar recursos naturais em desenvolvimento econômico, inovação e empregos dentro do próprio país.

Soberania e tecnologia

No século XXI, dados, conhecimento e tecnologia passaram a ocupar um papel estratégico na soberania dos países.

A chamada soberania digital envolve a capacidade de proteger dados, desenvolver tecnologias próprias e estabelecer regras para setores considerados estratégicos. O avanço da inteligência artificial tornou essa discussão ainda mais urgente.

Para o Brasil, o desafio está em desenvolver ecossistemas tecnológicos próprios sem se afastar do mercado internacional. A questão não é deixar de utilizar ferramentas estrangeiras, mas evitar dependências que possam comprometer setores essenciais.

A mesma discussão aparece na transição energética e na mobilidade sustentável, áreas em que tecnologia e capacidade industrial serão determinantes para definir quem produzirá as soluções do futuro.

Independência no campo

O agronegócio apresenta outra contradição. O Brasil é uma potência mundial na produção de alimentos, mas ainda depende do exterior para obter parte importante dos fertilizantes utilizados nas lavouras.

A busca por produtividade e resiliência passa pelo desenvolvimento de tecnologias e soluções próprias. Projetos de irrigação, como o Baixio de Irecê, na Bahia, além de ferramentas de rastreabilidade e mecanismos como créditos de carbono, fazem parte de um cenário em transformação.

Nesse sentido, independência não significa produzir tudo sozinho. Significa ter capacidade de negociar, inovar e tomar decisões sem que uma dependência específica comprometa setores fundamentais.

Independência de quem?

A pergunta é necessária quando se olha para 1822 a partir do Brasil de hoje. A independência foi uma conquista política, mas seus efeitos não foram distribuídos igualmente. Grande parte da população não participou das decisões que definiram a ruptura com Portugal e continuou submetida a estruturas de desigualdade.

Os escravizados ficaram à margem. A independência não alterou o sistema escravista, que continuou até 1888, quando a Lei Áurea aboliu oficialmente a escravidão.

As mulheres também permaneceram afastadas do poder político. O direito ao voto feminino só seria reconhecido mais de um século depois, em 1932.

Para os povos indígenas, a ruptura com Portugal não significou autonomia. A formação do Estado brasileiro foi acompanhada pela continuidade de disputas territoriais e políticas de integração e controle.

A história mostra, assim, que um país pode conquistar independência diante de outra nação e, ao mesmo tempo, manter profundas desigualdades dentro de suas próprias fronteiras.

Futuro soberano 

Em 1822, independência significava conquistar o direito de conduzir o próprio território. Mais de 200 anos depois, a ideia se tornou mais ampla.

Um país independente precisa ter capacidade de produzir, inovar, proteger seus recursos, garantir serviços essenciais e participar das transformações tecnológicas que definem o mundo contemporâneo. Mas também precisa fazer com que essa autonomia alcance sua população.

Afinal, soberania não se resume a ter território, governo e bandeira. Ela também está na capacidade de uma sociedade escolher seus próprios caminhos.

Por isso, o 7 de Setembro pode ser mais do que a celebração de um acontecimento de 1822. Pode ser um momento para perguntar quanto o Brasil consegue decidir sozinho, e para quem essa independência realmente existe. Duzentos e quatro anos depois, a independência continua sendo uma construção.

 

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