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Paladium vira Pax após denúncias e levanta novas dúvidas sobre o Olho Vivo no Paraná

Empresa ligada a sistemas de videomonitoramento em três estados passa a se apresentar com nova marca após sequência de denúncias; documentos obtidos pela Gazeta mostram que CNPJ continua sendo Paladium, mas e-mail oficial já migrou para domínio da Pax

Gazeta do Paraná · · 6 min de leitura
Paladium
Paladium — Crédito: Reprodução

Pouco mais de três semanas após passar a ser associada a denúncias envolvendo programas públicos de videomonitoramento em São Paulo, Goiás e Paraná, a Paladium Corp praticamente desapareceu de sua própria comunicação institucional. Em seu lugar surgiu a Pax, apresentada ao mercado como uma startup inovadora de inteligência artificial voltada à segurança pública e anunciada como destinatária de um aporte de US$ 40 milhões, cerca de R$ 200 milhões.

A mudança de identidade ocorreu justamente no período em que a empresa começou a aparecer em reportagens, representações e questionamentos relacionados a contratos e programas públicos de monitoramento. E é essa coincidência temporal que agora chama atenção.

Embora a empresa ainda não tenha apresentado documento público que comprove alteração formal de sua razão social, as evidências obtidas pela Gazeta do Paraná apontam para uma continuidade inequívoca entre a antiga Paladium e a nova Pax.

A primeira delas está no próprio site da empresa. Ao acessar o endereço paladium.ai, o usuário encontra a marca Pax estampada na página inicial. O domínio permanece vinculado à Paladium, mas a identidade visual e institucional já foi integralmente substituída.

A segunda evidência aparece em documentos oficiais da Receita Federal. O CNPJ 56.025.090/0001-20 continua registrado como PALADIUM CORP DESENVOLVIMENTO DE TECNOLOGIA LTDA., mas o endereço eletrônico informado pela própria empresa junto ao cadastro federal é legal@pax.ai. Na prática, a pessoa jurídica continua sendo Paladium, enquanto a comunicação institucional passou a utilizar exclusivamente a marca Pax.

Os registros oficiais revelam que a Paladium Corp Desenvolvimento de Tecnologia Ltda. permanece ativa, com capital social de R$ 140,2 milhões, tendo como controladora a Paladium Holdings LLC e como administrador David Peixoto dos Santos. Os mesmos elementos aparecem vinculados à nova marca Pax, hoje utilizada pela empresa em sua comunicação institucional. O mesmo David Peixoto que agora aparece em entrevistas e materiais promocionais como fundador e CEO da Pax.

A sucessão de elementos dificilmente pode ser tratada como coincidência. O domínio continua sendo o mesmo. O administrador continua sendo o mesmo. A atividade econômica continua sendo a mesma. A estrutura societária continua sendo a mesma. O serviço oferecido continua sendo o mesmo. O que mudou foi a marca. A pergunta é: por que?

A nova identidade foi lançada oficialmente em 28 de maio por meio de um press release internacional distribuído pela BusinessWire e reproduzido por veículos especializados em tecnologia e negócios. No material, a Pax é apresentada como uma empresa pioneira em inteligência artificial aplicada à segurança pública, capaz de reduzir crimes violentos e ampliar a eficiência policial por meio do processamento de dados em tempo real.

O anúncio veio acompanhado da informação de que a empresa teria captado US$ 40 milhões em uma rodada liderada pelos fundos internacionais Greenoaks e Benchmark. O que não aparece nas divulgações é qualquer menção à Paladium. Também não aparecem referências aos questionamentos envolvendo programas públicos de videomonitoramento nos quais a empresa passou a ser citada nas últimas semanas.

Segundo documento recebido pela Gazeta, a cronologia chama atenção. Em 6 de maio ganharam repercussão nacional os questionamentos envolvendo o programa Muralha Paulista, em São Paulo. Nos dias seguintes surgiram denúncias relacionadas ao Olho Vivo, no Paraná, e ao programa Goiás Digital. Em 28 de maio, a marca Pax foi lançada ao mercado acompanhada da narrativa de uma startup inovadora apoiada por investidores internacionais.

O contraste é evidente. Enquanto a nova marca é apresentada ao mercado como uma empresa revolucionária de inteligência artificial, o nome Paladium passou a ser associado a questionamentos sobre contratos públicos, governança de dados e estruturas de monitoramento estatal.

No Paraná, a controvérsia ganhou dimensão por causa do programa Olho Vivo. Reportagens já publicadas pela Gazeta revelaram documentos, denúncias e representações que apontam a existência de uma estrutura tecnológica envolvendo a Celepar, serviços de nuvem e uma empresa privada associada ao fornecimento de inteligência artificial para o sistema de monitoramento.

A principal pergunta continua sem resposta pública clara: como a tecnologia associada à Paladium entrou no ecossistema do Olho Vivo? É justamente nesse ponto que a comparação com outros estados se torna relevante.

Em Goiás, o governo estadual divulgou oficialmente a contratação de um projeto de videomonitoramento com inteligência artificial por quase R$ 35 milhões, com escopo que inclui equipamentos, suporte técnico, operação assistida, manutenção e conectividade.

Em São Paulo, a atuação da empresa aparece vinculada a contrato formal envolvendo a Prodesp, estatal paulista de tecnologia. Documentos relacionados ao programa Muralha Paulista descrevem uma solução integrada envolvendo software, hardware, inteligência artificial, infraestrutura de nuvem e operação tecnológica.

No Paraná, porém, a situação permanece mais nebulosa. A representação apresentada ao Tribunal de Contas do Estado sustenta que o Olho Vivo teria sido estruturado por uma engrenagem envolvendo Estado, Celepar, infraestrutura de nuvem e fornecedores privados, dificultando a identificação pública de todas as camadas da operação.

A suspeita não se limita ao fornecimento de software. O questionamento envolve quem controla a infraestrutura, quem processa os dados, quem executa cada etapa do serviço e quem recebe por cada uma dessas atividades.

A preocupação ganhou peso em abril, quando o TCE-PR suspendeu o pregão de quase R$ 581 milhões relacionado ao programa. A Corte apontou riscos de sobrepreço, fragilidades na governança de dados pessoais sensíveis, dúvidas sobre a modelagem da contratação e divergências envolvendo subcontratações.

Entre os pontos destacados pelos técnicos apareceu uma diferença de 925% em item relacionado à operação da plataforma em nuvem quando comparado ao Smart Sampa, programa semelhante implantado na capital paulista. Foi justamente nesse ambiente de crescente questionamentos que a Paladium deixou de ser Paladium na sua comunicação pública.

Até o momento, a empresa não apresentou explicação pública para a mudança de marca nem esclareceu a relação formal entre a Paladium Corp e a Pax.

Os documentos analisados pela Gazeta, porém, apontam todos na mesma direção: o CNPJ continua sendo Paladium, o administrador continua sendo David Peixoto, o domínio original continua ativo, o e-mail oficial passou a utilizar a marca Pax e o serviço ofertado permanece essencialmente o mesmo.

Diante desse conjunto de evidências, a questão deixa de ser se existe relação entre Paladium e Pax. A própria documentação demonstra essa continuidade. A pergunta que permanece sem resposta é outra. Por que a mudança ocorreu exatamente agora?

A empresa poderá alegar estratégia de expansão internacional, reposicionamento de mercado ou fortalecimento da marca. Mas a coincidência temporal é inevitável: a substituição da identidade ocorreu justamente quando o nome Paladium passou a aparecer em denúncias, representações em tribunais de contas e reportagens sobre programas públicos de videomonitoramento em três estados.

Enquanto a empresa não apresenta sua versão para essa transformação, permanece a impressão de que a Paladium pode ter encontrado na Pax não apenas uma nova marca, mas também uma forma de se afastar do peso que seu nome passou a carregar.

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