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Operação Compliance Zero: PF aponta pagamentos de até R$ 2 milhões a influenciadores

Investigação da Polícia Federal aponta que organização ligada ao banqueiro Daniel Vorcaro oferecia contratos milionários para influenciadores e jornalistas promoverem conteúdos favoráveis ao Banco Master e críticos ao Banco Central

Gabriel Porta · · 5 min de leitura
vorcaro e thiago
vorcaro e thiago — Crédito: Reprodução / G1

A Polícia Federal afirma que uma organização investigada por suposta ligação com o banqueiro Daniel Vorcaro montou uma estrutura para contratar influenciadores digitais e jornalistas com o objetivo de atacar o Banco Central e defender o Banco Master nas redes sociais. Segundo a investigação, as propostas de contratação chegavam a R$ 2 milhões.

As informações constam na decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), que autorizou nesta quinta-feira (9) mais uma fase da Operação Compliance Zero. A medida determinou buscas contra o publicitário Thiago Miranda Silva, apontado pela PF como o principal articulador do esquema.

De acordo com a decisão, a operação de comunicação era chamada internamente de "Projeto DV", referência às iniciais de Daniel Vorcaro.

Segundo a Polícia Federal, o grupo abordava influenciadores e jornalistas oferecendo contratos para publicação de conteúdos favoráveis ao Banco Master e críticos à atuação do Banco Central, especialmente em relação à possibilidade de liquidação da instituição financeira.

Antes de conhecerem o conteúdo do trabalho, os contratados precisavam assinar um acordo de confidencialidade que previa multa de R$ 800 mil em caso de quebra de sigilo.

Um dos depoimentos citados na investigação é o do vereador Rony Gabriel. Segundo ele, um representante da empresa UNLTD apresentou inicialmente uma proposta de gerenciamento de reputação para um "importante executivo". Somente após a assinatura do contrato de confidencialidade ele teria sido informado de que deveria gravar vídeos afirmando que o Banco Master era vítima da atuação do Banco Central.

Ainda conforme a PF, pessoas que recusavam participar do projeto passavam a ser alvo de ações de intimidação. A investigação aponta que o grupo utilizava informações privadas obtidas de forma ilícita para pressionar e constranger quem não aceitava as propostas.

Pagamentos

A decisão informa que os pagamentos aos influenciadores eram realizados por Thiago Miranda, que confirmou essa informação em depoimento à Polícia Federal.

Segundo o publicitário, os recursos utilizados vinham da venda de parte do portal Léo Dias, operação avaliada em R$ 3,5 milhões. Os valores teriam sido repassados pela empresa Super Empreendimentos e Participações, ligada a Daniel Vorcaro.

Para a Polícia Federal, porém, o dinheiro utilizado no projeto teria origem no suposto esquema de fraudes financeiras investigado na Operação Compliance Zero, que levou à prisão de Vorcaro em novembro de 2025.

Depoimento

Em depoimento, Thiago Miranda afirmou que conheceu Daniel Vorcaro durante as negociações envolvendo a venda de participação no portal de notícias Léo Dias. Segundo ele, o banqueiro demonstrava interesse em criar um conglomerado de mídia.

Após a primeira soltura de Vorcaro, Miranda disse ter apresentado um plano de gerenciamento de crise e reestruturação da imagem do empresário. Segundo seu relato, foi nesse contexto que surgiu o chamado Projeto DV dentro de sua agência.

O publicitário confirmou que o projeto previa a produção e divulgação de matérias relacionadas à prisão do banqueiro e às investigações envolvendo o Banco Master.

Monitoramento de jornalistas

A Polícia Federal afirma que a atuação do grupo não se restringia à contratação de influenciadores.

Segundo a investigação, Daniel Vorcaro e Thiago Miranda discutiram estratégias para monitorar a jornalista Malu Gaspar, do jornal O Globo, responsável por reportagens sobre o Banco Master. A PF afirma que foram levantadas informações financeiras, patrimoniais e familiares da jornalista, incluindo dados sobre cartão de crédito e veículo utilizado, com o objetivo de constrangê-la e desacreditar seu trabalho.

A investigação aponta que procedimento semelhante teria sido adotado contra Milton Maluhy Filho, presidente do Itaú, e sua esposa. Em mensagens atribuídas aos investigados, Vorcaro solicita um levantamento sobre o executivo e recebe como resposta de Miranda a frase: "Deixa comigo". Posteriormente, um dossiê sobre o casal teria sido produzido com a marca da agência do publicitário.

Segundo a PF, Thiago Miranda também afirmou possuir relação próxima com a companheira de Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, informação que, na avaliação dos investigadores, poderia ser utilizada em benefício do grupo.

A investigação também relata episódios de pressão para retirada de reportagens da internet. Em uma das mensagens citadas na decisão judicial, após um conteúdo sair do ar, Miranda teria comemorado dizendo: "Mais um arquivado!".

Decisão do STF

Na decisão que autorizou as buscas, o ministro André Mendonça afirmou que os elementos reunidos pela investigação vão além de "meras conjecturas".

O magistrado autorizou a apreensão de celulares, computadores, documentos físicos e eletrônicos, além do acesso a dados armazenados em nuvem. Também determinou a quebra dos sigilos bancário, fiscal e telefônico de Thiago Miranda. A Procuradoria-Geral da República manifestou-se favoravelmente às medidas.

Segundo Mendonça, a organização investigada apresentava "contornos de máfia" e atuava contra pessoas consideradas obstáculos aos interesses de Daniel Vorcaro.

Defesa

Em nota ao G1, a defesa de Thiago Miranda negou qualquer irregularidade e afirmou que o publicitário sempre atuou com legalidade, transparência, respeito às instituições e à liberdade de expressão.

Os advogados sustentam que Miranda não praticou atos criminosos nem participou de ações destinadas a intimidar, coagir ou violar direitos de terceiros. A defesa também ressaltou que a existência de investigação não representa reconhecimento de culpa e informou que o empresário está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos e colaborar com as apurações.

*Com informações do G1

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