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Guerra no Oriente Médio pode pressionar combustíveis, alimentos e inflação no Brasil

No Brasil, o impacto pode ser sentido entre 15 e 30 dias, a depender da intensidade da alta do barril do petróleo

Gazeta do Paraná · · 4 min de leitura
Petrobras
Petrobras — Crédito: Petrobras/Divulgação

A escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã já provoca efeitos nos mercados internacionais e pode trazer reflexos diretos para a economia brasileira. O primeiro impacto esperado é a alta de preços, especialmente de combustíveis e alimentos, em razão da forte oscilação da cotação do petróleo no mercado global.

Logo após os ataques conduzidos por Estados Unidos e Israel contra o Irã, o barril do petróleo tipo Brent registrou alta expressiva. Em um dos pregões, chegou a subir mais de 13%, alcançando a casa dos US$ 81. Analistas apontam que o patamar acima de US$ 85 é considerado um sinal de alerta para autoridades econômicas. Em cenários de tensão prolongada, não se descarta uma escalada ainda maior.

O principal foco de preocupação está no Estreito de Ormuz, por onde circula cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo. Ataques a embarcações e o acúmulo de petroleiros na região já encarecem seguros e elevam o risco logístico. Especialistas estimam que até 15 milhões de barris por dia podem deixar de chegar ao mercado global caso o tráfego seja interrompido de forma mais duradoura.

No Brasil, o impacto pode ser sentido entre 15 e 30 dias, a depender da intensidade da alta do barril. O petróleo é base para combustíveis, fertilizantes, plásticos e transporte. Assim, qualquer aumento significativo tende a se espalhar por toda a cadeia produtiva.

A alta no diesel, por exemplo, afeta diretamente o custo do frete e do transporte de alimentos. Com isso, produtos básicos podem ficar mais caros no supermercado. Em período pré-eleitoral, esse cenário se torna ainda mais sensível para o governo federal, que já avalia medidas preventivas para conter pressões inflacionárias.

Por outro lado, o Brasil é produtor e exportador de petróleo. A Petrobras tende a se beneficiar no curto prazo com a valorização do Brent, inclusive com reflexos positivos nas ações da companhia e no lucro líquido. Ainda assim, mesmo com produção interna relevante, o país não está totalmente isolado da dinâmica internacional de preços.

Agronegócio beneficiado?

Além dos riscos, o conflito também pode abrir oportunidades. O conselheiro de Administração Fernando Röhsig avalia que guerras costumam elevar a demanda global por alimentos. Em cenários de instabilidade, países buscam reforçar estoques estratégicos, o que pode favorecer exportadores como o Brasil. Ele falou em entrevista ao Grupo A Hora, de Lajeado.

Segundo ele, o impacto do petróleo vai além do combustível. “Quando o petróleo sobe, fertilizantes e insumos agrícolas também encarecem. Isso afeta o custo de produção”, observa. Ainda assim, no contexto macroeconômico, o Brasil tende a se fortalecer como fornecedor de alimentos, sobretudo se o conflito se prolongar.

O cenário atual já trouxe volatilidade às bolsas internacionais. Investidores demonstram aversão ao risco, enquanto ativos considerados mais seguros, como o ouro, registram valorização. Analistas comparam a situação ao embargo do petróleo nos anos 1970, quando os preços dispararam e provocaram forte pressão inflacionária global.

No campo diplomático, o governo brasileiro adota postura de cautela. O assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais, Celso Amorim, alertou para o risco de expansão regional do conflito e defendeu preparo estratégico.

“Ninguém é juiz do mundo. Matar um líder de um país, que está em exercício, é condenável e inaceitável. Devemos nos preparar para o pior", afirmou o embaixador.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o Itamaraty reiteraram a posição histórica do Brasil em favor de uma solução negociada.

“Estamos a poucos dias do encontro do presidente com Trump, em Washington. É sempre difícil encontrar o equilíbrio entre a verdade e a conveniência. Não perder a capacidade de diálogo sem comprometer a credibilidade exige destreza”, afirmou Amorim.

 

Cenário indefinido

Autoridades internacionais indicam que os ataques podem se estender por semanas. Enquanto isso, o mercado monitora atentamente a infraestrutura de produção e, principalmente, as rotas de escoamento do petróleo.

Se a guerra permanecer restrita e sem grandes interrupções logísticas, os efeitos podem ser limitados e temporários. Porém, um conflito prolongado, com bloqueio efetivo do Estreito de Ormuz ou redução relevante da oferta global, tende a ampliar as pressões inflacionárias e impactar diretamente o bolso do consumidor brasileiro.

Diante desse cenário, o Brasil se encontra em posição ambígua: vulnerável à alta de preços no curto prazo, mas potencialmente beneficiado como exportador de petróleo e alimentos em um contexto de demanda internacional aquecida e reorganização das cadeias globais de suprimento.

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