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EY e contratos milionários entram no centro do mecanismo de privatizações e PPPs do governo Ratinho

Consultoria aparece em sequência de contratos ligados à venda da Celepar e à estrutura de fiscalização das PPPs da Sanepar; TCE e Ministério Público passaram a mirar parte das operações

Gazeta do Paraná · · 4 min de leitura
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. — Crédito: Reprodução

A Ernst & Young se consolidou nos últimos dois anos como uma das peças centrais do mecanismo de privatizações, desestatizações e PPPs do governo Ratinho Junior no Paraná. O nome da consultoria internacional passou a aparecer sucessivamente em contratos milionários ligados à venda da Celepar, à modelagem de estruturas estratégicas do Estado e à fiscalização das PPPs da Sanepar, justamente em meio ao avanço de questionamentos do Tribunal de Contas e do Ministério Público sobre parte dessas operações.

A sequência de contratos e decisões revela como a EY foi ocupando posições-chave dentro dos projetos considerados prioritários pelo Palácio Iguaçu. O primeiro movimento ocorreu em outubro de 2024, quando a Celepar firmou contrato de R$ 2,6 milhões com a Ernst & Young para elaboração de estudos ligados ao processo de desestatização da companhia de tecnologia do Estado. 

Meses depois, em 23 de janeiro de 2025, o governo ampliou o espaço da consultoria no processo e contratou a Ernst & Young Assessoria Empresarial Ltda por R$ 8,7 milhões, novamente sem licitação, para executar a “prestação de serviço de assessoria, visando estudo técnico, análises e operacionalização de processo de alienação” da Celepar. 

A contratação ocorreu por inexigibilidade de licitação, sob argumento de notória especialização. O caso passou a gerar reação de sindicatos, entidades de servidores e parlamentares de oposição, principalmente pelo fato de a Celepar concentrar dados estratégicos do Estado, incluindo informações da saúde, educação, segurança pública e administração tributária. Enquanto isso, a EY também avançava sobre outra estrutura sensível do governo: as PPPs da Sanepar.

A empresa venceu os três lotes da Licitação Eletrônica nº 442/24, criada para contratar a estrutura responsável por verificar, auditar e certificar a execução das PPPs de esgotamento sanitário espalhadas pelo Paraná. O contrato tinha função estratégica porque a empresa vencedora atuaria justamente na fiscalização do cumprimento das metas das concessionárias privadas.

Mas o caso acabou desembarcando no Tribunal de Contas do Estado. Em 9 de abril de 2026, o Tribunal Pleno do TCE manteve, por unanimidade, a suspensão da licitação e dos contratos decorrentes dela. 

O acórdão, relatado pelo conselheiro Fernando Augusto Mello Guimarães, apontou falhas graves na análise de exequibilidade da proposta apresentada pela EY e aceita pela Sanepar. 

Segundo a decisão, a proposta vencedora previa compartilhamento dos mesmos profissionais entre Londrina, Maringá e Cascavel, apesar de o edital exigir equipes físicas próprias e permanentes em cada região.  O Tribunal afirmou que não havia margem para compartilhamento de integrantes das equipes técnicas. 

O voto também sustentou que aceitar esse modelo depois da apresentação das propostas poderia prejudicar a isonomia da disputa.  Em um dos trechos mais duros do acórdão, o relator menciona risco de “conluio indireto” e “simulação de competitividade”. 

O processo teve origem em representação apresentada pela Russell Bedford GM Auditores Independentes S/S, concorrente derrotada na disputa, que apontou possível inexequibilidade da proposta da EY e ausência de estrutura operacional compatível com as exigências do edital.  A crise envolvendo a Sanepar ocorreu paralelamente ao aumento da pressão sobre o processo de privatização da Celepar.

Em agosto de 2025, o Tribunal de Contas determinou que a Celepar explicasse cinco contratos sem licitação firmados no contexto da desestatização da companhia.  O despacho também encaminhou o caso para análise da 4ª Inspetoria de Controle Externo do TCE.

Pouco depois, em setembro de 2025, o processo de privatização da Celepar acabou suspenso cautelarmente pelo Tribunal de Contas. A medida foi posteriormente ratificada pelo Pleno da Corte em dezembro daquele ano. 

Na decisão, o TCE afirmou ter identificado “fragilidades” capazes de expor o Estado a riscos financeiros e operacionais caso não fossem corrigidas.  Mesmo com os questionamentos, a EY continuou ocupando posição central na estrutura do processo.

Relatório oficial da audiência pública da desestatização da Celepar, realizado em 3 de setembro de 2025, mostra que Alexandre Vidal, diretor executivo da Ernst & Young, atuou como responsável pela coordenação geral do processo de desestatização da estatal paranaense. 

A sequência de episódios consolidou o nome da consultoria como um dos principais operadores técnicos das transformações estruturais conduzidas pelo governo Ratinho Junior.

O avanço da EY sobre áreas estratégicas do Estado também passou a alimentar críticas políticas sobre concentração de contratos, terceirização de estruturas sensíveis e dependência crescente de consultorias privadas em projetos ligados a saneamento, tecnologia e dados públicos.

Fora do Brasil, a consultoria também já enfrentou crises reputacionais. Em 2021, a Swissinfo, com base em documentos analisados pelo Financial Times, noticiou que a EY na Suíça era alvo de ação bilionária relacionada à falência da Zeromax, considerada a segunda maior quebra empresarial da história suíça. 

No Paraná, porém, o centro da discussão passou a ser outro: o tamanho da influência adquirida pela consultoria dentro do próprio mecanismo de privatizações, concessões e PPPs do Estado.

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