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De estatal lucrativa à crise bilionária: como a Copel Telecom perdeu valor após venda para fundo de Tanure

Infraestrutura criada pela Copel para integrar o sistema elétrico do Paraná virou uma das maiores redes de fibra óptica do país

Gazeta do Paraná · · 3 min de leitura
ligga
ligga — Crédito: Reprodução Internet

Criada originalmente para atender às necessidades internas da rede elétrica paranaense, a antiga Copel acabou se transformando em uma das maiores infraestruturas de telecomunicações do país. O que começou como uma rede de fibra óptica para conectar usinas, subestações e unidades operacionais espalhadas pelos 399 municípios do Paraná se tornou, ao longo de duas décadas, um ativo estratégico avaliado em bilhões de reais.

A estatal entrou oficialmente no setor de telecomunicações em 2000, com a criação da Copel Telecom. Aproveitando os cerca de 25 mil quilômetros de fibra óptica já instalados ao longo das linhas de transmissão de energia, a empresa expandiu rapidamente sua atuação. Inicialmente, o foco era atender órgãos públicos e empresas, mas a operação cresceu até alcançar consumidores residenciais.

Em 2012, o Paraná tornou-se o primeiro estado brasileiro totalmente conectado por fibra óptica. No ano seguinte, a Copel Telecom passou a oferecer internet ao consumidor final, com banda larga por fibra dentro das residências, conexão simétrica e sem franquia de dados, modelo considerado avançado para a época.

Os resultados financeiros acompanhavam a expansão. Entre 2010 e 2018, a empresa acumulou cerca de R$ 510 milhões de lucro líquido, consolidando-se como uma operação rentável dentro do grupo Copel.

Apesar disso, em 2020, o governo do Paraná decidiu privatizar a companhia. O argumento apresentado era de que telecomunicações não faziam parte da atividade principal da estatal de energia. O objetivo seria concentrar esforços no setor elétrico.

O leilão foi realizado na B3 e teve forte disputa. Empresas como Algar, Vivo e fundos de investimento participaram de 18 rodadas de lances. Ao final, o fundo Bordeaux, controlado pelo empresário Nelson Tanure, venceu a disputa com uma proposta de R$ 2,4 bilhões, valor 70,9% acima do preço mínimo estipulado.

Após a aquisição, a empresa passou a se chamar Ligga Telecom. Nos anos seguintes, porém, a situação financeira começou a se deteriorar rapidamente.

Segundo informações divulgadas pelo mercado, cerca de R$ 350 milhões do caixa da empresa foram aplicados em títulos ligados a uma instituição financeira posteriormente liquidada pelo Banco Central. Ao mesmo tempo, a agência Moody’s rebaixou a classificação de risco da operadora, enquanto credores executaram garantias relacionadas a uma dívida estimada em R$ 1,3 bilhão.

O cenário se agravou com investigações envolvendo o controlador da companhia. Atualmente, os ativos da Ligga estariam sendo negociados por aproximadamente R$ 500 milhões, valor muito inferior aos R$ 2,4 bilhões pagos no processo de privatização realizado em 2020.

Na prática, a desvalorização representa uma perda próxima de R$ 1,9 bilhão em seis anos.

Mesmo diante da crise financeira, a infraestrutura construída ao longo de décadas permanece ativa. A rede de fibra óptica segue presente nos 399 municípios paranaenses e continua sendo considerada um dos principais ativos de telecomunicações da região Sul do país.

O caso passou a ser tratado por integrantes do setor como um exemplo de deterioração acelerada de valor após privatização. Especialistas e agentes do mercado ainda tentam entender quais fatores levaram uma operação lucrativa, consolidada e estrategicamente posicionada a enfrentar um processo tão rápido de endividamento, perda de credibilidade financeira e possível desmontagem.

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