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Da Sanepar à concessionária: ex-diretora assume comando de PPPs bilionárias e levanta suspeitas

Transição quase imediata do primeiro escalão da estatal para empresa que opera contratos de mais de R$ 4 bilhões reacende debate sobre conflito de interesses e “porta giratória” no saneamento

Gazeta do Paraná · · 4 min de leitura
Priscila Brunetta
Priscila Brunetta — Crédito: Divulgação

Não é ilegal. Mas também não é trivial. Quando uma dirigente do primeiro escalão de uma estatal responsável por contratos bilionários deixa o cargo e, praticamente no mesmo movimento, passa a trabalhar na empresa privada que assume esses mesmos serviços, a discussão deixa de ser currículo. Vira interesse público. É exatamente essa a situação que chegou à redação da Gazeta do Paraná.

Documentos oficiais, registros do Portal da Transparência, publicações societárias e informações profissionais mostram uma transição acelerada de uma ex-diretora administrativa da Companhia de Saneamento do Paraná para a Ambiental Paraná, braço do grupo Aegea Saneamento responsável por operar as Parcerias Público-Privadas de esgotamento sanitário firmadas com a própria estatal.

E a cronologia é o que mais incomoda. O nome no centro da história é Priscila Marchini Brunetta. Os dados públicos mostram que ela construiu uma carreira longa dentro da Sanepar antes de atravessar a rua. A primeira passagem começou em 2012, como consultora estratégica lotada na Gerência de Governança, Riscos e Compliance — setor que trata de controles internos, integridade corporativa e gestão institucional. Não é área periférica. É onde passam as informações sensíveis da companhia.

Em janeiro de 2019, veio a promoção para o primeiro escalão: Diretora Administrativa. Cargo estatutário. Assento nas decisões. Responsabilidade direta sobre contratos, estrutura administrativa e funcionamento interno da estatal. Permaneceu na função até 27 de abril de 2023. A saída, no entanto, não significou desligamento imediato da máquina.

Entre 1º de maio e 31 de outubro de 2023, ainda figurava oficialmente na estrutura da empresa como conselheira indicada em conselhos e comitês internos, segundo o Portal da Transparência. Continuava, portanto, dentro da engrenagem institucional enquanto a estatal estruturava seus maiores projetos. E eram projetos grandes. Muito grandes. Naquele período, a Sanepar conduzia duas concorrências internacionais que redesenhariam o mapa do saneamento no estado.

A Concorrência 100/2023, voltada à PPP da microrregião Centro-Litoral, tinha valor máximo estimado em R$ 2,7 bilhões. Na sequência, a Concorrência 001/2024 organizou a concessão das regiões Centro-Leste e Oeste, com teto superior a R$ 1,6 bilhão. Somadas, as parcerias ultrapassam a casa dos R$ 4 bilhões em contratos de longo prazo, envolvendo dezenas de municípios e décadas de operação. Enquanto esses editais eram estruturados e discutidos internamente, Priscila ainda integrava conselhos da estatal.

O passo seguinte ocorreu quase sem intervalo. Informações profissionais públicas indicam que em outubro de 2023, exatamente no mês em que encerrava o vínculo com a Sanepar, ela já assumia cargo na Ambiental Paraná, empresa criada para operar essas mesmas PPPs. Sem quarentena. Sem hiato visível. Sem transição prolongada. Saiu de um lado da mesa e sentou no outro.

A função assumida não era técnica. Era política-institucional: Head de Relações Institucionais. A área que conversa com governo, reguladores, secretarias, agências e, ironicamente, com a própria estatal contratante. Em outras palavras: o posto de interlocução com o poder público. Meses depois, quando a PPP 001/2024 foi julgada e consolidada, ela já estava do lado privado.

Em outubro de 2024, reportagem do Diário Indústria & Comércio a citava oficialmente como representante da Ambiental Paraná, falando em nome da empresa sobre ações ligadas à concessão. A ascensão foi rápida. Em maio de 2025, atas registradas na Junta Comercial confirmaram sua eleição como Diretora-Presidente da Ambiental Paraná 1 SPE e da Ambiental Paraná 2 SPE, empresas responsáveis por executar os contratos bilionários. Passou do gabinete administrativo da estatal ao comando das concessionárias em pouco mais de um ano e meio.

A documentação analisada pela reportagem não aponta participação societária nem condição de sócia. O vínculo é executivo. Mas, no setor regulado, a discussão raramente é apenas societária. É de proximidade. É de tempo. É de acesso à informação.

Especialistas em governança pública costumam chamar esse movimento de porta giratória — quando gestores deixam cargos estratégicos no Estado e migram quase imediatamente para empresas privadas diretamente impactadas por decisões tomadas durante sua gestão. Não é, por si só, ilegal. Mas é exatamente o tipo de situação que exige distanciamento, transparência e, em muitos casos, quarentena formal para evitar conflitos de interesse. No caso analisado, a distância praticamente não existiu.

A denúncia com esse questionamento não foi pulverizada nem enviada à imprensa em massa. O texto recebido pela reportagem da Gazeta do Paraná tinha aparência de denúncia formal “O presente cidadão, no exercício de seu dever cívico e valendo-se das prerrogativas constitucionais de controle social, vem à presença de Vossa Excelência apresentar…”. Ao final, pede “deferimento”, à denúncia de “improbidade administrativa e crimes contra a administração pública”. No entanto nossa equipe de reportagem não identificou até o momento instauração de inquérito civil ou qualquer outro ato em unidades do Ministério Público.

A Gazeta do Paraná seguirá acompanhando.

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