🗳️ Eleições 2026: acompanhe a apuração em tempo real Acompanhar →
Gcast
Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Chef Ângelo Omar Chef Ângelo Omar Chef Ângelo Omar Cidinha Marcon Cidinha Marcon Cidinha Marcon Julia Maraschi Julia Maraschi Julia Maraschi Marcos Formighieri Marcos Formighieri Marcos Formighieri Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Roberto Veloso Roberto Veloso Roberto Veloso Sergio Ricardo Sergio Ricardo Sergio Ricardo

Tragédia em Rio Bonito do Iguaçu é reflexo do desmatamento, diz ONG

Levantamento da SOS Mata Atlântica reforça alerta: entre 1985 e 2015, Rio Bonito do Iguaçu foi o município brasileiro que mais desmatou a Mata Atlântica

Gazeta do Paraná · · 4 min de leitura
Rio Bonito
Rio Bonito — Crédito: Roberto Dziura Jr/AEN

O tornado que destruiu parte de Rio Bonito do Iguaçu, no Centro-Sul do Paraná, deixando sete mortos, mais de 800 feridos e milhares de desabrigados, é mais do que uma tragédia natural. Para especialistas, o desastre é também um alerta sobre os impactos acumulados de décadas de desmatamento e desequilíbrio ambiental em uma das regiões que mais perderam cobertura florestal no país.

De acordo com a plataforma MapBiomas, o município perdeu cerca de 60% da sua vegetação nativa nos últimos 30 anos. Em 1985, mais da metade do território, 56,8%, era coberta por floresta; hoje, apenas 24% mantêm cobertura vegetal. No mesmo período, a área destinada à agropecuária saltou de 35,5% para quase 68%. O levantamento da SOS Mata Atlântica reforça o alerta: entre 1985 e 2015, Rio Bonito do Iguaçu foi o município brasileiro que mais desmatou a Mata Atlântica, com 24,9 mil hectares de floresta destruídos, o equivalente à área de uma cidade como Fortaleza.

Imagens de satélite do programa Landsat/Copernicus mostram que, até os anos 1980, uma densa floresta ainda cobria a margem direita do rio Iguaçu. Hoje, restam apenas fragmentos isolados de mata, em topos de morros e ao longo de cursos d’água. O cenário é resultado de um processo histórico de ocupação e exploração madeireira que marcou o interior do Paraná.

A devastação começou no início do século 20, impulsionada pela extração de araucárias, os “pinheiros-do-paraná”, e se intensificou nas décadas seguintes com a expansão agrícola e pecuária. Segundo estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em 2001 restava apenas 0,8% da área original das matas de araucária no Estado. “Salvo o Parque Nacional do Iguaçu e a região costeira, o Paraná é um Estado devastado”, resume Clóvis Borges, diretor da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS).

Natureza em fúria?

Entre os moradores atingidos pelo tornado, a sensação é de que a tragédia tem relação direta com a forma como o ser humano vem tratando o meio ambiente. A técnica de enfermagem aposentada Glaci Tereza Merlak, de 63 anos, perdeu parte da casa e da plantação. Em meio aos destroços, ela faz uma reflexão dura:

“Hoje a natureza está devolvendo para nós o que já fizemos com ela. Destruímos a mata, os rios, tudo. Todos só pensam em plantar e colher, e agora esse é o troco que ela está dando. É nossa culpa. Temos que pôr a mão na consciência e pensar no que estamos fazendo com o nosso mundo. Estamos acabando com ele.”

A fala de Glaci ecoa entre os que viveram o pânico do último dia 7. Ventos que ultrapassaram 300 km/h arrasaram bairros inteiros, derrubando casas, árvores e redes elétricas. Em poucas horas, o município ficou irreconhecível, e a tragédia reacendeu o debate sobre como o desmatamento aumenta a vulnerabilidade das cidades diante de fenômenos extremos.

Clima mais quente, eventos mais intensos

A professora e pesquisadora Leila Limberger, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste), explica que o aquecimento global tem relação direta com o aumento da força e da frequência de tornados, tempestades e enchentes.

“A nossa atmosfera está cerca de 1,5°C mais quente do que há algumas décadas. Isso é suficiente para alterar completamente o equilíbrio energético do planeta”, observa.

Leila compara o sistema climático a uma panela de pressão: “Se você aumenta o fogo, tudo dentro trabalha com mais intensidade. É o que estamos fazendo com a Terra. Todos os fenômenos que já existiam, tornados, tempestades, secas e enchentes, agora acontecem com mais força e mais frequência.”

Para a pesquisadora, a sociedade precisa aprender a conviver com um clima mais extremo, mas também agir para reduzir os danos.

“Precisamos aprender a conviver com o novo clima. Ele alterna chuvas muito fortes com períodos de seca intensa. É fundamental que a população entenda os riscos e saiba como agir durante eventos severos”, defende.

Além da adaptação, Leila destaca a importância de medidas de mitigação, que possam diminuir os impactos das mudanças climáticas. “O reflorestamento é a forma mais eficiente de melhorar a qualidade do clima. As árvores capturam gás carbônico, reduzem a temperatura do ambiente e ajudam a restabelecer o equilíbrio natural.”

 

Compartilhar: f X W T

Comentários (0)

  • Seja o primeiro a comentar.