Relatos inéditos ampliam o caso do palhaço indiciado por estupro de vulnerável em Cascavel
A Gazeta do Paraná ouviu pais e analisou falas públicas que expõem os efeitos de denúncias antigas e a repercussão social de um caso que extrapolou os limites do inquérito policial
Durante muito tempo, ele esteve ali. No centro da cidade, nas praças, nas escolas, nos eventos, nos dias comuns. Um palhaço é sempre alguém que se vê. Em Cascavel, esse palhaço era conhecido. Chamava crianças pelo nome, fazia rir, circulava. O tipo de presença que não estranha, que se naturaliza.
O nome artístico é Tico Bonito. E foi esse nome que passou a circular de outra forma quando a Polícia Civil do Paraná concluiu um inquérito que o indiciou por estupro de vulnerável.
O processo corre em segredo de justiça. É assim sempre que crianças estão envolvidas. Ainda assim, o caso saiu dos autos quando o próprio investigado decidiu falar. Gravou vídeos. Escreveu textos. Anunciou performances. Disse que era inocente. Disse que provaria. Disse que era alvo de perseguição política. Disse que o processo deveria ter seguido em silêncio… mas falou. E quando alguém fala, outras vozes começam a se mover.
A primeira denúncia
Segundo informações oficiais da Polícia Civil, a investigação começou a partir do relato de uma criança que hoje tem 11 anos. O que teria acontecido, de acordo com a apuração, ocorreu quando ela tinha entre 5 e 6 anos. O relato não veio na hora. Veio anos depois. Veio quando foi possível. Quem trabalha com esse tipo de violência sabe: o tempo da criança não é o tempo do mundo.
A apuração foi conduzida pelo NUCRIA, núcleo especializado nesse tipo de crime. Houve escuta protegida. Houve análise. Ao final, a polícia entendeu que havia indícios suficientes e indiciou o palhaço. Ele responde em liberdade. O caso agora está sob análise do Ministério Público.
O que ele diz
Nos vídeos publicados nas redes sociais, o palhaço tenta organizar sua própria versão dos fatos. Fala de exposição, de risco, de injustiça. Em uma das gravações, afirma: “Era um processo em que eu provaria minha inocência e a vida seguiria, mas a polícia resolveu dar visibilidade e, no caminho, colocou pessoas em risco.”
A frase volta mais de uma vez, com variações. Em outro vídeo, ele insiste: “Se eu fosse culpado, eu já estaria preso.” Em tom de contestação, também diz ter tentado colaborar com a investigação: “Eu disponibilizei todo o meu histórico médico para análise. Solicitei coleta de material genético. A polícia recusou”. Tudo isso anos após o ocorrido, segundo o relato da vítima.
Quando a vítima fala
Depois desses vídeos, surgiu outro. Um vídeo sem cenário, sem edição, sem proteção. Uma pessoa que se apresenta como vítima olha para a câmera e fala. Não organiza. Não explica. Diz.
“Eu tinha apenas cinco anos. Você mexeu comigo e com o meu corpo. Eu era uma criança que não sabia de nada.”
A fala avança como quem atravessa algo antigo. Em outro momento, a pessoa acrescenta: “Você me causou um monte de trauma. Entrei em depressão. Tudo que acontece comigo hoje eu me cobro: por que eu deixei?”
Para preservá-la, a reportagem não identificará a pessoa - que é menor de idade - bem como optou por ocultar elementos do vídeo que permitem que ela seja identificada.
O tempo em que não se falou
A Gazeta do Paraná ouviu algo que não estava nas redes. Pais. Pessoas que não gravaram vídeos. Que não postaram. Que ficaram anos tentando entender o que estava acontecendo com suas filhas.
Um deles conta que a filha tinha 8 anos em 2015. Só em 2022 conseguiu dizer o que tinha acontecido. Antes disso, o sofrimento aparecia no corpo. “Ela já fazia acompanhamento psicológico. Tinha ansiedade, depressão. Presenciei momentos em que ela se batia por não conseguir contar o que tinha acontecido”, relata a mãe. Ela descreve a culpa da filha, a tentativa de se punir, o silêncio como peso físico. Hoje, aos 19 anos, ela ainda faz terapia, ainda toma medicação.
Outro relato fala de 2016. A filha tinha 5 anos. O relato só veio em 2023. “Depois que contou, ela entrou em depressão profunda. Se mutilava. Tentou se matar inúmeras vezes”, diz a mãe.
O impacto atravessou a casa inteira. O pai passou a dormir pouco, com medo. A mãe relata noites sem descanso, remédios, mudanças forçadas na rotina. “Como eu ia desconfiar de um homem que apoiava crianças, idosos e animais? Meus filhos admiravam ele”, afirma.
As falas se repetem em pontos diferentes, como ecos: isolamento, agressividade, automutilação, tentativas de sobreviver ao que não foi dito por anos.
Uma cidade atônita
Quando o caso ganhou as redes, Cascavel passou a falar dele de todos os jeitos. Acusação, silêncio, indignação, defesa. Entre os comentários, um se destacou pelo tom.
Uma artista da cidade escreve que a situação a “inflama por dentro”. Diz que não vê benefício no tom dos vídeos de Tico. Lembra: “Um indiciamento é um passo da investigação, não uma condenação.”
Mas a fala não para aí. Ela rejeita a ideia de que crianças inventariam algo dessa gravidade: “Isso não comprova que crianças estejam inventando acusações tão perniciosas.”
Critica o tribunal das redes, mas também aponta o que costuma ficar escondido: “Abusadores estão muitas vezes dentro das nossas próprias casas.” E desloca o debate para a estrutura: “Proteger crianças passa por educação sexual, por escuta e por incentivo às denúncias. Relativizar isso é revitimizar quem deveria estar sendo preservado.”
No fim, revela a própria contradição: “Acreditei no seu trabalho. Apoiei quando sua kombi pegou fogo. Justamente por isso, preciso dizer: se há inocência, a verdade aparecerá.”
A performance
Mesmo com tudo isso em curso, o palhaço anunciou uma performance. Disse que ficaria amarrado por uma hora no centro da cidade. Perguntou: “O que você faria?”. Escreveu: “Estou aqui.”
Alguns chamam de arte. Outros de provocação. Outros de erro. O fato é que, enquanto o processo segue em silêncio institucional, a história continua fazendo barulho do lado de fora.
Artistas se manifestam
Na manhã desta terça-feira, foi divulgada uma nota assinada pelo Setorial de Artes Cênicas do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Cascavel (SETACC/CMPC). O texto não menciona nomes, mas se refere ao artista da palhaçaria citado nas reportagens recentes. Afirma que o coletivo não é conivente nem omisso diante de denúncias de violência sexual contra crianças e registra que, caso a culpa seja comprovada, a pessoa envolvida deve responder por seus atos. A nota também reafirma o compromisso do setor com a ética no exercício artístico e manifesta solidariedade à vítima e à família, aguardando que o caso seja apurado dentro da lei.
O que existe agora
Existe um inquérito concluído. Existem falas que ficaram tempo demais guardadas. Existe um indiciamento. Existe defesa. Existe dor. E existe uma cidade tentando entender o que fazer quando o riso dá lugar ao silêncio - e o silêncio começa, finalmente, a falar.
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