MP denuncia quatro por fraude em licitação e desvio de aparelho de raio-X de hospital de Matinhos
Denúncia aponta fraude em licitação e desvio de aparelho de raio-X avaliado em R$ 100 mil de hospital de Matinhos; equipamento foi encontrado em clínica privada na Região Metropolitana de Curitiba
Uma denúncia criminal apresentada pelo Ministério Público do Paraná (MPPR) joga luz sobre um esquema que mistura fraude em licitação, direcionamento de contratos públicos e apropriação indevida de equipamento hospitalar em Matinhos, no Litoral do estado. A acusação, formalizada pela 1ª Promotoria de Justiça da comarca em 10 de fevereiro, envolve dois servidores públicos municipais e um casal ligado à empresa contratada para serviços de radiologia.
O caso tem origem em investigações iniciadas após indícios de irregularidades em contratos firmados pela prefeitura em 2024. À época, os dois servidores denunciados integravam a Comissão Especial de Licitação do município, responsável por conduzir processos de contratação na área da saúde.
Segundo o MP, as apurações apontaram que a comissão autorizou a contratação direta de uma empresa para locação de equipamentos de radiologia sem que estivessem presentes as hipóteses legais que permitem esse tipo de dispensa. Em vez de um procedimento competitivo, a contratação teria sido construída sobre um cenário artificial de concorrência.
Concorrência simulada
A denúncia descreve um mecanismo clássico de fraude licitatória: a apresentação de orçamentos fictícios para justificar a escolha de um fornecedor previamente definido. Conforme a investigação policial, três propostas usadas para embasar a contratação partiram de empresas ligadas ao mesmo grupo familiar.
Os CNPJs, segundo a apuração, estavam vinculados aos outros dois denunciados — um casal que representava a empresa vencedora do contrato. As companhias funcionariam no mesmo endereço e sob controle comum, o que indicaria a inexistência de disputa real.
Para o Ministério Público, a prática não apenas burlou a legislação de compras públicas, mas também comprometeu a transparência do processo, criando uma aparência formal de legalidade para uma contratação previamente direcionada.
O destino do equipamento público
Se a fraude licitatória sustenta a base da denúncia, o episódio que impulsionou a investigação envolve o desaparecimento de um equipamento público. Durante a execução do contrato, a empresa passou a ter posse de um aparelho de raio-X pertencente ao município, avaliado em aproximadamente R$ 100 mil.
De acordo com o MP, os representantes da empresa teriam retirado o equipamento da unidade de saúde sob a justificativa de manutenção técnica. No entanto, o aparelho não retornou ao hospital.
As investigações revelaram que o raio-X foi instalado em uma unidade privada pertencente ao casal denunciado, localizada em Almirante Tamandaré, na Região Metropolitana de Curitiba. O equipamento permaneceu fora do patrimônio público até ser localizado.
Recuperação e operação policial
A descoberta ocorreu apenas em janeiro de 2025, durante uma operação da Polícia Civil do Paraná. A ação confirmou que o aparelho municipal estava em funcionamento em estabelecimento privado, o que reforçou a linha investigativa de apropriação indevida.
A recuperação do equipamento foi considerada peça-chave para a formalização da denúncia criminal. A partir dela, consolidou-se o entendimento de que não se tratava apenas de irregularidade administrativa, mas de possível crime contra a administração pública.
Crimes imputados
Com base no conjunto de provas reunidas pela autoridade policial, o Ministério Público imputou aos denunciados dois crimes principais: peculato por apropriação — quando agente público ou particular se apropria de bem público sob sua guarda — e contratação direta ilegal.
No caso dos servidores, a acusação se concentra na condução irregular do processo licitatório e no favorecimento da empresa. Já em relação ao casal, o foco recai tanto sobre a participação na fraude quanto sobre a apropriação do equipamento.
Próximos passos
A denúncia agora aguarda análise do Judiciário. Caso seja recebida, os quatro investigados passarão à condição de réus e responderão a ação penal.
O andamento do caso deve incluir oitivas de testemunhas, análise documental detalhada e eventual produção de perícias, especialmente para esclarecer a dinâmica do contrato e a cadeia de responsabilidade sobre o equipamento.
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