Governo Lula aguarda decisão dos EUA sobre novas tarifas a produtos brasileiros
Casa Branca deve anunciar até quarta-feira (15) se aplicará novas tarifas sobre produtos brasileiros. Governo Lula avalia reação e não descarta usar a Lei da Reciprocidade
O governo federal aguarda a decisão dos Estados Unidos sobre a possível aplicação de novas tarifas de 25% e 12,5% sobre produtos brasileiros exportados ao mercado norte-americano. O prazo para que a Casa Branca anuncie se colocará as medidas em prática termina na próxima quarta-feira (15), e o Palácio do Planalto pretende avaliar o alcance da decisão antes de definir a resposta oficial.
A equipe do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) trabalha com o cenário de que as novas tarifas serão confirmadas. A avaliação ganhou força após declarações do representante do Departamento de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, que afirmou recentemente que os dois países ainda estão longe de chegar a um acordo.
A expectativa, porém, é que o governo norte-americano possa ampliar a lista de exceções às tarifas de 25%, preservando alguns produtos brasileiros. Integrantes da equipe econômica e diplomática avaliam que o Departamento de Estado pode publicar um anexo com novos itens isentos da cobrança.
A pressão para ampliar essas exceções também parte do setor privado dos Estados Unidos. Segundo o Ministério das Relações Exteriores, 43 empresas e associações comerciais americanas solicitaram ao governo de Donald Trump que determinados produtos brasileiros fiquem fora da lista de sobretaxas, alegando que não existem substitutos produzidos no mercado interno americano.
Caso a taxação seja confirmada, a reação inicial do governo brasileiro deverá ser um posicionamento oficial de contestação à medida. Interlocutores do presidente Lula afirmam que o Brasil pretende manifestar "indignação" e reforçar o entendimento de que a decisão é "inaceitável".
O governo também deve reiterar o argumento apresentado nas respostas enviadas ao governo norte-americano durante a investigação comercial, sustentando que a estrutura tarifária brasileira já favorece as exportações dos Estados Unidos e, por isso, não haveria justificativa para novas barreiras comerciais.
Após a divulgação da decisão americana, equipes técnicas dos ministérios e do Itamaraty deverão analisar detalhadamente os produtos atingidos para definir os próximos passos. Entre as alternativas estão a continuidade das negociações diplomáticas e a eventual aplicação da Lei de Reciprocidade.
A legislação foi aprovada pelo Congresso Nacional em abril do ano passado e regulamentada pelo presidente Lula três meses depois, após os Estados Unidos anunciarem tarifas de 50% sobre produtos brasileiros. A norma autoriza o Brasil a adotar medidas de retaliação contra países ou blocos econômicos que imponham barreiras comerciais consideradas prejudiciais aos interesses nacionais.
Apesar da expectativa pela decisão de Washington, a diplomacia brasileira avalia que Lula não deve buscar uma negociação direta com Donald Trump neste momento.
Governo considera improvável adiamento
Nos bastidores, integrantes do governo consideram pequena a possibilidade de os Estados Unidos adiarem a entrada em vigor das novas tarifas. A avaliação é de que a política industrial da administração Trump tem sido baseada justamente na adoção de barreiras comerciais e que, até agora, Washington não concedeu flexibilizações semelhantes a outros países.
Segundo negociadores brasileiros, representantes americanos também deixaram claro durante as conversas que o prazo de 15 de julho para conclusão da investigação seria mantido.
Ainda assim, caso o governo norte-americano opte por adiar a medida, a expectativa é de que a decisão venha acompanhada de uma justificativa oficial, evitando interpretações divergentes sobre os motivos da prorrogação.
O Brasil afirma que não solicitou formalmente o adiamento das tarifas, por entender que elas são injustificadas. No entanto, integrantes do governo reconhecem que uma prorrogação seria positiva, especialmente se ocorrer para permitir a continuidade das negociações comerciais.
Flávio Bolsonaro defende adiamento
O pré-candidato do PL à Presidência da República, senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tem defendido publicamente o adiamento das tarifas.
No início do mês, ele encaminhou uma manifestação ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) sugerindo que a decisão fosse transferida para depois das eleições brasileiras.
Durante uma audiência pública realizada nos Estados Unidos na semana passada, Flávio voltou a defender o adiamento e afirmou que este seria o pior momento para a adoção das novas tarifas, argumentando que a medida acabaria beneficiando politicamente o presidente Lula.
Nos bastidores da diplomacia brasileira, auxiliares do governo avaliam que integrantes da ala mais ideológica da administração Trump, como o secretário de Estado Marco Rubio e o assessor Darren Beattie, podem tentar influenciar o cenário político brasileiro.
Segundo essa avaliação, um eventual adiamento das tarifas também poderia ser interpretado como um gesto político favorável a Flávio Bolsonaro, fortalecendo sua pré-candidatura. Trump recebeu o senador na Casa Branca em maio, poucos dias após um encontro com o presidente Lula.
Um ano de tensão comercial
A atual disputa comercial ocorre um ano após Donald Trump anunciar uma tarifa adicional de 50% sobre produtos brasileiros exportados aos Estados Unidos. Na ocasião, o presidente americano divulgou uma carta direcionada a Lula, na qual também saiu em defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e criticou investigações conduzidas no Brasil, classificando-as como uma "caça às bruxas".
Desde então, parte das tarifas foi revista, outras permaneceram em vigor e novas cobranças passaram a ser discutidas pelo governo americano.
Agora, o governo brasileiro concentra esforços para tentar reduzir os impactos da nova rodada de medidas comerciais que poderá ser anunciada pela Casa Branca nos próximos dias.
Matérias relacionadas
“Tijolinho” do Marcos Formighieri analisa pesquisa eleitoral e faz críticas ao governo do Paraná
Participantes do Mais Motoristas têm até 3/9 para enviar documentos
Advogado que move ações contra o poder público revela bastidores de denúncias no Paraná
Governo Central tem superávit de R$ 10,8 bilhões em julho
Comentários (0)
- Seja o primeiro a comentar.