Desconto bilionário na conta de água expõe racha entre Sanepar e Agepar no Paraná
Metade do montante será utilizada para investimentos considerados não onerosos e a outra metade servirá para custear descontos nas contas de água
Uma decisão que, em tese, deveria resultar apenas em boas notícias para os consumidores acabou escancarando uma divergência entre duas importantes instituições ligadas ao saneamento no Paraná. A definição do destino de aproximadamente R$ 4 bilhões recebidos pela Sanepar por meio de um precatório da União colocou a companhia e a Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados do Paraná (Agepar) em lados opostos de uma discussão que mistura regulação, tarifas, investimentos e interesses empresariais.
Na última terça-feira (23), o Conselho Diretor da Agepar aprovou a destinação integral dos recursos para a chamada modicidade tarifária, conceito que busca garantir tarifas mais baixas aos usuários. Pela decisão, metade do montante será utilizada para investimentos considerados não onerosos e a outra metade servirá para custear descontos nas contas de água e esgoto.
Na prática, a medida prevê uma redução de 25% sobre a tarifa mínima cobrada dos usuários, benefício que deverá ser aplicado por aproximadamente 30 meses.
O problema é que a decisão está longe de representar um consenso.
Poucas horas após a deliberação da agência reguladora, a Sanepar divulgou fato relevante ao mercado informando que discorda do entendimento adotado e que pretende utilizar todas as medidas administrativas e judiciais cabíveis para defender seus interesses.
A reação evidenciou um cenário incomum: regulador e regulada, que normalmente atuam em sintonia dentro das regras estabelecidas para o setor, passaram a protagonizar uma disputa pública envolvendo bilhões de reais.
O que está em jogo
O recurso é resultado de uma ação judicial relacionada ao reconhecimento da imunidade tributária recíproca da companhia em cobranças federais. Após o pagamento do precatório pela União, surgiu a discussão sobre qual deveria ser o destino desse dinheiro.
Por se tratar de uma situação considerada extraordinária e sem previsão específica nas metodologias tarifárias vigentes, a própria Sanepar solicitou que a Agepar estabelecesse um tratamento regulatório para o caso.
A agência então criou um grupo técnico, promoveu consulta pública, realizou audiência pública e elaborou uma nota técnica para definir a aplicação dos recursos.
Ao final do processo, o entendimento foi de que todo o valor líquido recebido deveria retornar aos usuários do sistema.
Segundo a Agepar, cerca de R$ 1,97 bilhão será destinado a investimentos em áreas como ampliação do esgotamento sanitário, segurança hídrica, redução de perdas e ações voltadas à vulnerabilidade social. Outros R$ 1,97 bilhão financiarão descontos tarifários.
A agência sustenta que a decisão está alinhada ao princípio da modicidade tarifária e reforça que não houve mudança de entendimento ao longo do processo, mas apenas a conclusão de uma análise específica para um caso considerado atípico.
A posição da Sanepar
A companhia, entretanto, entende a situação de forma diferente.
Embora não tenha detalhado quais medidas pretende adotar, a empresa deixou claro que não concorda com o direcionamento integral dos recursos aos usuários.
Nos bastidores do mercado financeiro, a expectativa era de que ao menos parte dos valores pudesse permanecer na companhia, inclusive possibilitando a distribuição de dividendos extraordinários aos acionistas.
Essa interpretação tem origem em regras anteriores que destinavam 75% dos ganhos obtidos com recuperação de créditos fiscais para modicidade tarifária, enquanto os 25% restantes poderiam ser apropriados pela empresa.
O CEO da Sanepar, Wilson Bley, chegou a afirmar recentemente que a definição sobre o precatório era fundamental para a discussão sobre eventual distribuição de proventos extraordinários.
A Agepar, porém, optou por um caminho mais rígido, determinando que a totalidade dos recursos seja revertida para usuários e investimentos vinculados ao serviço.
Com isso, praticamente desaparece a possibilidade de utilização de parte do montante para remuneração dos acionistas, pelo menos dentro do modelo aprovado pela agência.
Próximos capítulos
Apesar da divergência, a decisão da Agepar já estabelece prazos para implementação das medidas.
A Sanepar terá até 30 dias para iniciar a aplicação dos descontos na tarifa mínima e até 90 dias para apresentar um plano detalhado de investimentos financiados com os recursos do precatório.
O grande ponto de interrogação é se as medidas judiciais anunciadas pela companhia poderão alterar ou retardar a execução da decisão regulatória.
Por enquanto, a única certeza é que os consumidores foram colocados no centro da discussão. Enquanto a Agepar defende que os R$ 4 bilhões devem retornar integralmente à população por meio de tarifas menores e investimentos, a Sanepar sustenta que ainda há questões jurídicas e patrimoniais a serem resolvidas.
O resultado é um raro conflito institucional que promete continuar movimentando os bastidores do saneamento paranaense nos próximos meses. Afinal, quando regulador e regulada deixam de falar a mesma língua, dificilmente a disputa termina na primeira decisão.
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