A decepcionada Cristina: do discurso antissistema à vice do PSD
Depois de atacar o grupo de Ratinho Junior e se apresentar como alternativa à política tradicional em 2024, Cristina Graeml mudou de rota, filiou-se ao PSD e passou a integrar o grupo que antes criticava
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A trajetória política de Cristina Graeml entre as eleições de 2024 e 2026 é marcada por uma mudança significativa de posicionamento partidário. Em pouco menos de dois anos, a jornalista que chegou ao segundo turno da eleição para a Prefeitura de Curitiba se afastou do discurso de enfrentamento ao chamado “sistema” e passou a integrar o principal grupo político do Paraná.
Na eleição municipal de 2024, Cristina disputou a Prefeitura de Curitiba pelo PMB contra Eduardo Pimentel, então candidato do PSD. No segundo turno, os dois protagonizaram uma campanha marcada por ataques e acusações. Em debate realizado pela Band, Cristina se apresentou como candidata “contra o sistema podre” e criticou a estrutura política que apoiava o adversário.
A postura se repetiu nos demais confrontos. No último debate antes da votação, realizado pela RPC, Cristina afirmou que lutava contra o poder político e econômico e criticou o uso da “máquina” para impedir sua chegada à Prefeitura. Pimentel, por sua vez, era apoiado pelo então prefeito Rafael Greca e pelo governador Ratinho Junior, ambos ligados ao PSD.
A eleição terminou com Pimentel eleito prefeito. Cristina, entretanto, saiu fortalecida politicamente ao conquistar 42% dos votos válidos no segundo turno, depois de uma campanha que a colocou como uma alternativa de fora da estrutura tradicional da política curitibana.
A primeira mudança
Depois da eleição, a trajetória partidária começou a mudar. Em fevereiro de 2025, Cristina passou pelo Podemos e, em setembro do mesmo ano, anunciou sua filiação ao União Brasil, onde lançou sua pré-candidatura ao Senado ao lado do senador Sergio Moro.
A filiação ao União Brasil representou uma aproximação com uma estrutura partidária diferente daquela que havia enfrentado nas eleições municipais. Na ocasião, Cristina afirmou que pretendia contribuir para a unificação da direita e da centro-direita no Paraná.
Foi também nesse período que ganhou força o debate sobre a diferença entre o discurso adotado na campanha de 2024 e os novos caminhos políticos escolhidos por Cristina.
Do União Brasil ao PSD
A segunda mudança foi ainda mais significativa.
Em 31 de março de 2026, Cristina anunciou sua filiação ao PSD, partido do governador Ratinho Junior. O anúncio foi feito ao lado do próprio governador, que afirmou que os dois vinham conversando sobre temas em comum e destacou valores como família, liberdade econômica, propriedade privada e liberdade de imprensa.
A mudança colocou Cristina no mesmo partido de figuras que estiveram no centro de suas críticas durante a disputa pela Prefeitura de Curitiba.
O movimento também alterou sua posição no tabuleiro eleitoral. A jornalista deixou de ser uma adversária externa ao grupo político de Ratinho Junior para se tornar uma integrante da legenda que governa o Paraná.
A aproximação com Sandro Alex
Em julho, Cristina passou a ser apontada como possível candidata a vice-governadora na chapa de Sandro Alex, escolhido pelo PSD para disputar a sucessão de Ratinho Junior.
A possibilidade ganhou força nos bastidores e foi confirmada publicamente como uma alternativa política. Em 25 de julho, Sandro Alex chegou a ser questionado sobre a possibilidade de Cristina ser sua vice e respondeu positivamente.
A convenção do PSD daquele mês oficializou Sandro Alex como candidato ao Governo do Paraná. Na ocasião, porém, a legenda terminou o evento sem anunciar formalmente o nome do vice. Posteriormente, veículos paranaenses passaram a tratar Cristina como nome confirmado ou praticamente definido para a composição.
Assim, a trajetória que começou em 2024 com Cristina se apresentando como uma alternativa à estrutura política tradicional chegou, em 2026, à possibilidade de ocupar a vice de um candidato escolhido pelo partido que ela havia enfrentado politicamente na eleição municipal.
Uma mudança que provoca questionamentos
A mudança de posição partidária não é, por si só, incomum na política. Partidos, alianças e projetos eleitorais mudam, e políticos podem rever posições ao longo do tempo.
O que chama atenção, neste caso, é a distância entre o discurso adotado durante a campanha de 2024 e o cenário político de 2026.
Naquela eleição, Cristina construiu parte de sua candidatura sobre a oposição à estrutura política representada por Pimentel e pelo grupo de Ratinho Junior. Dois anos depois, ela passou a integrar o PSD e se aproximou justamente desse grupo.
A mudança também recoloca em debate uma frase atribuída à própria Cristina em 2025: “Eu nunca me apresentei como candidata antissistema”.
A declaração ganha novo significado diante da trajetória partidária posterior. Em 2024, a candidata disputava espaço como uma outsider. Em 2025, aproximou-se do União Brasil e de Sergio Moro. Em 2026, ingressou no PSD de Ratinho Junior e passou a ser cotada para a chapa de Sandro Alex.
Da oposição à composição
A política costuma ser marcada por alianças que mudam de acordo com o cenário eleitoral. Adversários de uma eleição podem se tornar aliados na seguinte, especialmente quando existe convergência de interesses e projetos.
No caso de Cristina Graeml, porém, a mudança é particularmente simbólica porque envolve não apenas uma troca de legenda, mas a aproximação com o mesmo grupo político que esteve entre os principais alvos de suas críticas na disputa de 2024.
Para quem acompanhou aquela campanha e votou em Cristina justamente pela promessa de romper com a estrutura tradicional, fica uma questão política inevitável: a mudança representa uma evolução de posições, uma estratégia eleitoral ou uma contradição com o discurso apresentado anteriormente?
A resposta caberá à própria Cristina e, principalmente, aos eleitores que acompanharam sua trajetória.
O fato objetivo é que a candidata que em 2024 disputava contra o grupo político do PSD agora integra a legenda e pode ocupar a segunda posição em uma chapa liderada por Sandro Alex, nome escolhido pelo partido para dar continuidade ao projeto político de Ratinho Junior no Paraná.
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