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O Balaio da Pressa

Acusação contra um magistrado reacende debate sobre julgamentos precipitados, generalizações e os danos causados à credibilidade de instituições inteiras

Eliane Alexandrino · · 4 min de leitura
Artigo desembargador Marcus Vinicius no TJ PR
Artigo desembargador Marcus Vinicius no TJ PR — Crédito: Divulgação

Por Marcus Vinicius – TJPR

Nesta semana, mais uma vez, a indignação ganhou velocidade maior que a reflexão. A notícia envolvendo um desembargador aposentado acusado de vender decisões judiciais percorreu as redes sociais em questão de minutos. Diante desse cenário, merece destaque a postura serena e ponderada do desembargador Marcus Vinicius, do Tribunal de Justiça do Paraná, ao defender uma reflexão baseada nos fatos e no respeito aos princípios fundamentais do Estado de Direito. E, como acontece com frequência em tempos de julgamentos instantâneos, não demorou para que a acusação contra um indivíduo se transformasse, na praça pública digital, em condenação coletiva de toda uma categoria.

A lógica parece simples: se um magistrado é acusado de corrupção, então todos os magistrados são suspeitos. Se um médico comete um erro grave, toda a medicina está comprometida. Se um policial age fora da lei, toda a instituição é corrupta. É uma forma de raciocínio tão antiga quanto equivocada: a generalização.

O problema das generalizações é que elas dispensam o esforço de pensar. São atalhos mentais confortáveis para quem prefere conclusões rápidas a análises cuidadosas. Afinal, é mais fácil colocar milhares de pessoas no mesmo balaio do que reconhecer que a realidade é feita de nuances, diferenças e responsabilidades individuais.

O caso em questão deve ser investigado com rigor. Se as acusações forem comprovadas, que haja punição exemplar. A sociedade tem o direito de exigir integridade daqueles que exercem funções públicas, especialmente de quem tem a missão de julgar conflitos e garantir a aplicação da lei. Mas o mesmo compromisso com a Justiça exige algo fundamental: que a culpa seja pessoal, nunca coletiva.

Para os magistrados que exercem sua função com seriedade, episódios como esse trazem um sentimento adicional: o de ver um trabalho de anos ser atingido por um fato isolado. Enquanto milhares lutam diariamente pela valorização da magistratura, pela preservação de sua credibilidade e pelo fortalecimento da confiança da sociedade nas instituições, uma única acusação é capaz de lançar sombras sobre todos. Aquilo que foi construído com esforço paciente parece, de repente, ser jogado ao chão.

E então é preciso recomeçar.

Recomeçar sem esmorecer. Recomeçar sem ceder ao desânimo. Recomeçar com a consciência de que a reputação de uma instituição não se sustenta por discursos, mas pelo trabalho cotidiano de seus integrantes. É o trabalho silencioso de cada magistrado que atende, estuda, decide e busca fazer Justiça todos os dias que reconstrói a confiança pública.

A credibilidade não nasce dos grandes gestos. Ela é construída como o trabalho de uma formiguinha: um ato de dedicação por vez, uma decisão correta após outra, um compromisso renovado a cada dia. O esforço é lento, quase invisível. Mas é justamente ele que sustenta a força das instituições.

Nenhuma categoria profissional está imune a desvios de conduta. Há maus profissionais em todas as áreas. Contudo, seria absurdo concluir que a existência de um infrator invalida o trabalho honesto de milhares de outros que cumprem diariamente suas funções com dedicação e senso de dever.

As redes sociais, porém, raramente premiam a ponderação. A indignação rende mais curtidas que a prudência. O ataque generalizado produz mais engajamento que a análise equilibrada. E assim se constrói uma cultura em que indivíduos deixam de responder por seus próprios atos para se tornarem representantes involuntários de grupos inteiros.

A Justiça, curiosamente, existe justamente para evitar esse tipo de raciocínio. Nos tribunais, não se condenam categorias, classes ou corporações. Julgam-se pessoas e fatos. A responsabilidade é individual porque a culpa também é.

Se o desembargador acusado for inocente, terá sofrido uma condenação antecipada. Se for culpado, responderá por seus atos. Em nenhuma das hipóteses sua conduta representará automaticamente milhares de magistrados espalhados pelo país.

A internet adora balaios. A Justiça, quando funciona corretamente, prefere fatos. E entre o balaio e os fatos existe uma diferença fundamental: no primeiro cabem os preconceitos; no segundo, a verdade. E é nessa verdade, construída diariamente pelo trabalho silencioso e persistente de cada magistrado, que continuará repousando a confiança da sociedade.

Foto: Divulgação

 

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