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Ilha do Maciel aposta no turismo para frear êxodo de famílias

Com apoio do IDR-Paraná, a Ilha do Maciel usa o turismo comunitário para gerar renda e garantir a posse de terras tradicionais frente à expansão portuária

Gabriel Porta · · 4 min de leitura
ILHA MACIEL
ILHA MACIEL — Crédito: IDR-PR/Divulgação

Na Baía de Paranaguá, a Ilha do Maciel, localizada em Pontal do Paraná, passa por um processo de transformação com a implantação do Turismo de Base Comunitária (TBC), que vem sendo utilizado como estratégia de desenvolvimento sustentável e de garantia territorial para a comunidade caiçara.

A iniciativa conta com apoio do Instituto de Desenvolvimento Rural do Paraná e é conduzida pelo extensionista Charles Fernando Marins Peixoto, que atua há mais de uma década na organização comunitária, planejamento participativo e estruturação de ações voltadas ao desenvolvimento local.

A Ilha do Maciel possui mais de dois séculos de ocupação tradicional e, ao longo de sua história, enfrentou conflitos fundiários e pressões relacionadas à expansão industrial e portuária. As disputas tiveram origem na Lei Estadual nº 249/1949, que desconsiderou a posse tradicional das famílias ao destinar áreas à empresa Balneária Pontal do Sul S/A, cenário que impulsionou a organização da comunidade.

Em 2017, foi criada a Associação Comunitária dos Pescadores da Ilha do Maciel. Com apoio técnico do IDR-Paraná, os moradores passaram a atuar de forma mais estruturada na defesa de seus direitos e na construção de alternativas econômicas.

Segurança e estrutura

Entre os avanços, está a obtenção do Termo de Autorização de Uso Sustentável (TAUS), que garante segurança jurídica às famílias diante de interesses externos. Também foi elaborado o Cadastro Ambiental Rural (CAR) Comunitário, assegurando reconhecimento ambiental e gestão coletiva do território.

Outro marco foi a chegada da energia elétrica, que melhorou a qualidade de vida, possibilitou o armazenamento adequado do pescado e abriu caminho para o desenvolvimento do turismo.

Desde 2016, a ilha integra os Circuitos Internacionais de Caminhadas na Natureza, promovidos pelo IDR-Paraná, evento que reúne cerca de 300 visitantes por edição. A iniciativa envolve 19 famílias, responsáveis por oferecer alimentação típica e acolhimento.

“O cardápio é a expressão da identidade caiçara: arroz, feijão, peixe fresco frito, farinha de mandioca branca e sucos de frutas nativas da Mata Atlântica. Mais do que gerar renda pontual, o evento reforça o reconhecimento da comunidade como destino turístico de valor cultural e ambiental”, afirma Peixoto.

Alternativas de renda

O planejamento participativo identificou novas oportunidades de geração de renda e agregação de valor à produção local. Entre as iniciativas em desenvolvimento estão a produção de pescado defumado, a fabricação de doces artesanais com frutos da floresta, o artesanato, o guiamento em trilhas ecológicas, vivências culturais, a pesca de recreio e o turismo de observação de aves.

“Optamos por um modelo que prioriza o protagonismo comunitário, a geração de renda local e a conservação ambiental”, destaca o extensionista.

A diversificação econômica é considerada fundamental para conter o êxodo de moradores. Em 2017, a comunidade contava com 43 famílias. Em 2023, esse número caiu para 27, o que reforça a necessidade de estratégias que incentivem a permanência das novas gerações.

Formação

Por meio do Diagnóstico Participativo Rural (DRP), metodologia aplicada pelo IDR-Paraná, os próprios moradores participam da definição das prioridades da comunidade. Atualmente, 70% dos responsáveis familiares estão em idade economicamente ativa e 19 das 27 famílias demonstram interesse direto em atuar com o turismo comunitário.

Estão previstas capacitações para formação de guias, gestão de negócios comunitários e qualificação da infraestrutura, com foco na consolidação de um modelo econômico sustentável.

Para o IDR-Paraná, o Turismo de Base Comunitária na Ilha do Maciel vai além da geração de renda.

“Trata-se de uma estratégia integrada de desenvolvimento territorial, proteção ambiental e valorização da cultura caiçara”, afirma Peixoto. “A experiência na Ilha do Maciel demonstra que o turismo responsável pode funcionar como instrumento de resistência frente à descaracterização territorial, promovendo desenvolvimento sustentável e preservando o patrimônio cultural do Litoral do Paraná”, complementa.

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