🗳️ Eleições 2026: acompanhe a apuração em tempo real Acompanhar →
Result
Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Antonio Carlos Kakay Chef Ângelo Omar Chef Ângelo Omar Chef Ângelo Omar Cidinha Marcon Cidinha Marcon Cidinha Marcon Julia Maraschi Julia Maraschi Julia Maraschi Marcos Formighieri Marcos Formighieri Marcos Formighieri Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Oswaldo Eustáquio Roberto Veloso Roberto Veloso Roberto Veloso Sergio Ricardo Sergio Ricardo Sergio Ricardo
Mais › Cultura

“Agora eu sei exatamente o que fazer”: a história do jornalista Mano Nunes

Em entrevista ao Mais, o jornalista Mano Nunes relembra quase duas décadas de produção independente na internet, fala sobre a democratização da comunicação, cultura hip-hop, jornalismo e os desafios da profissão

Julia Maraschi · · 8 min de leitura
Mano Nunes em entrevista ao Mais Gazeta do Paraná
Mano Nunes em entrevista ao Mais Gazeta do Paraná — Crédito: Divulgaçaõ

🎧 Ouça esta matéria — narrado por IA

Há 19 anos produzindo conteúdo para a internet, quando o YouTube ainda dava os primeiros passos no Brasil, o jornalista Mano Nunes acompanhou de perto as transformações da comunicação digital. Criador do canal Bem Bolado TV, ele recebeu artistas, músicos, políticos e personagens da cultura brasileira, construindo uma trajetória marcada pelo jornalismo independente. Em entrevista ao Mais, Mano falou sobre o início da carreira, a influência da cultura hip-hop, a entrevista com os Racionais MC's, a importância do networking e refletiu sobre o papel do jornalismo em meio ao crescimento dos influenciadores digitais.

Início de tudo

Antes de se tornar jornalista, Mano Nunes já tinha o hábito de gravar vídeos com os amigos, a câmera servia para gravar ideias, rotinas e brincadeiras entre eles. Foi nesse contexto que surgiu o contato com uma ferramenta que ainda dava os primeiros passos: o YouTube.

Em 2007, um amigo de Mano Nunes voltou dos Estados Unidos e apresentou a nova plataforma ao grupo. Na época, o Youtube ainda era novidade e não tinha o espaço que ocupa atualmente na produção e distribuição de conteúdo. Ao perceber o potencial da ferramenta, Mano e os amigos decidiram levar para internet o trabalho que faziam de maneira informal, e então no dia 20 de abril de 2007, foi criado o programa Bem Bolado Tv.

O canal teve início sem a estrutura de empresa e sem a dimensão que teria anos depois. Era, inicialmente, um espaço construído entre amigos que encontraram na internet uma nova possibilidade de criação. Com o tempo, porém, o conteúdo passou a incorporar o jornalismo e a cobertura de diferentes acontecimentos, dando origem ao que Mano define como uma experiência de jornalismo alternativo.

A trajetória também revela uma percepção antecipada sobre os caminhos da mídia. Quando o projeto começou, a internet ainda não era vista por todos como um dos principais espaços para produção jornalística. Mano, no entanto, decidiu apostar naquele ambiente e acompanhou de dentro a transformação provocada pela expansão das plataformas digitais.

Hoje, ao olhar para os 19 anos de trajetória, ele não enxerga apenas a história de um canal, mas também parte da transformação da própria comunicação. O que começou com uma câmera entre amigos se tornou um projeto de jornalismo independente e acompanhou a internet deixar de ser uma novidade para se tornar um dos principais meios de produção, circulação e consumo de informação.

Uma trajetória construída em coletivo

Desde o início, o Bem Bolado Tv foi construído com a visão do “coletivo”, o entrevistado conta que sempre gostou de trabalhar com outras pessoas, e que mesmo antes do início do canal, a produção nunca foi feita individualmente. A câmera, os projetos e as ideias circulavam entre pessoas que compartilhavam a vontade de criar conteúdo e experimentar novas possibilidades na comunicação.

Ao longo dos 19 anos de trajetória, mais de 50 pessoas já passaram pelo Bem Bolado TV. Para Mano, essa construção coletiva é parte fundamental da história do projeto. A ideia de fazer jornalismo na internet surgiu, desde o começo, acompanhada pela disposição de convidar outras pessoas para participar, testar formatos e colocar projetos em prática.

Essa construção também se estende para as relações criadas no meio jornalístico, o entrevistado conta sobre a carreira, os vínculos construídos e troca de experiências com quem estava ao seu redor. Essa lógica aparece não apenas nos profissionais que passaram pelo canal, mas também nos convidados e artistas que aceitaram compartilhar suas histórias.

Mais do que uma produção feita por várias mãos, o coletivo se tornou parte da identidade do Bem Bolado TV. Para Mano, a comunicação nunca foi uma atividade isolada: é justamente a partir das pessoas, das parcerias e das histórias compartilhadas que novos projetos ganham vida.

Periferia como ponto de partida

A relação de Mano Nunes com o rap e com a cultura periférica começou antes de o Bem Bolado TV se consolidar como um projeto jornalístico. Nascido no bairro Guarujá, na região do extremo sul de Cascavel, o jornalista cresceu em contato com uma realidade que, segundo ele, é marcada por uma forte identidade cultural. Foi desse ambiente que surgiu também uma aproximação natural com as histórias e os personagens da periferia.

Quando começou a trabalhar com jornalismo, Mano passou a observar naquele espaço diferentes pautas e pessoas que considerava interessantes. A proximidade com o rap veio, então, como uma extensão dessa vivência. Muitos dos artistas que entrevistava já faziam parte de seu círculo de amizades, o que fez com que a cultura hip-hop ocupasse naturalmente um espaço importante em seu trabalho. E foi então que o Bem Bolado TV passou a dar visibilidade a artistas e histórias que nem sempre encontravam espaço nos meios tradicionais de comunicação. Mano acompanhou de perto a cena do rap em Cascavel e entrevistou nomes ligados ao movimento e transformou em pauta um universo que já fazia parte de sua própria trajetória.

Entrevista com os Racionais MC's

Entre as histórias que marcaram a trajetória de Mano Nunes, uma das mais simbólicas aconteceu em 2013, quando o jornalista conseguiu entrevistar os quatro integrantes dos Racionais MC's durante uma passagem do grupo por Cascavel.

Na época, o acesso aos artistas era restrito e a presença da imprensa no camarim não era algo simples de conseguir. Para Mano, a entrevista acabou se tornando um dos momentos mais importantes de sua carreira, não apenas pelo nome dos entrevistados, mas pelo caminho percorrido até chegar até eles.

A oportunidade veio justamente de onde menos esperava: o segurança do evento, que abriu a porta para a entrevista. E mais do que o encontro com um dos maiores nomes do rap brasileiro, porém, a experiência deixou uma lição que Mano carrega na profissão: valorizar todas as pessoas.

O jornalista lembra que o profissional que está diante de uma oportunidade nem sempre sabe quem poderá ajudá-lo a chegar até ela. Para Mano, o episódio resume uma das características fundamentais do jornalismo: construir relações, fazer contatos e reconhecer a importância de cada pessoa envolvida em uma história.

“Se eu já tenho o não, vou fazer o que eu gosto”

A escolha pelo jornalismo também foi marcada por dúvidas, críticas e pela necessidade de romper com um caminho que não fazia sentido para Mano Nunes. Apesar de cursar outra área antes de se tornar jornalista, o entrevistado conta que sempre se interessou pela área da Humanas, Ciências Sociais e política, mas acabou optando por seguir inicialmente uma formação que não correspondia aos seus interesses.

A decisão de mudar de área veio depois de perceber que o medo de não ter sucesso não deveria ser maior do que a vontade de trabalhar com aquilo que realmente gostava. Mano relembra que, assim como muitos profissionais da área, ouviu que poderia “passar fome” ao escolher o jornalismo. Para ele, porém, a realidade de onde veio já era marcada por dificuldades e pela presença do “não”. Se o risco existiria de qualquer forma, então valeria a pena tentar em uma profissão que despertasse interesse e propósito.

Foi a partir desse raciocínio que decidiu apostar no jornalismo. “Vou na qual eu gosto. Porque lá eu tenho o não, mas pelo menos eu posso tentar e posso fazer algo que eu amo”, afirmou. A escolha representa não apenas uma mudança de curso, mas também a decisão de transformar uma atividade que já fazia por paixão em profissão, encontrando na comunicação um espaço para contar histórias, conhecer pessoas e construir sua própria trajetória.

Humildade abre mais portas que fama

Entre as histórias que mais marcaram sua trajetória, Mano destaca a relação com convidados como KL Jay e Pedro Muffato. Para ele, os dois representam algo que vai além da fama: a capacidade de manter a simplicidade e estender a mão para quem está começando. Mesmo com trajetórias consolidadas, ambos aceitaram participar do Bem Bolado TV e compartilhar suas histórias.

Para Mano, essas experiências reforçam uma das principais lições que aprendeu na comunicação: valorizar todas as pessoas. Segundo ele, muitas vezes, quem parece estar mais distante de uma oportunidade é justamente quem pode ajudar a abrir uma porta.

jornalismo continua sendo sobre pessoas

Depois de quase duas décadas produzindo conteúdo na internet, Mano Nunes olha para a própria trajetória e encontra uma certeza: a comunicação mudou, mas a essência permanece. Do YouTube que ainda dava os primeiros passos às novas plataformas, foram entrevistas, amizades e histórias que ajudaram a construir seu caminho no jornalismo.

Entre artistas consagrados, personagens da periferia e pessoas que encontrou pelo caminho, Mano aprendeu que nenhuma história se constrói sozinho. Para ele, mais do que alcançar grandes nomes ou números na internet, comunicar é criar conexões, ouvir diferentes realidades e dar espaço para quem tem algo a dizer.

E talvez seja justamente essa a maior marca de seus 19 anos de Bem Bolado TV: continuar acreditando que, por trás de cada pauta, existe uma pessoa.

Acesse aqui a entrevista completa

Compartilhar: f X W T

Comentários (0)

  • Seja o primeiro a comentar.